quinta-feira, 21 de maio de 2015

A COMÉDIA MUNDANA



("A comédia mundana", de Luiz Biajoni. Língua Geral. 480 páginas)


  Faz seis anos chegou às minhas mãos para fazer resenha, aqui mesmo neste espaço, um livro que estava dando o que falar. Publicado apenas no site do autor, os originais já percorriam com sucesso os corredores de algumas editoras. Mas ninguém publicava. O motivo? Talvez o seu título: "Sexo anal - uma novela marrom", de Luiz Biajoni.
  O livro, uma trama policial divertida e escrita no ritmo de um folhetim, mereceu uma avaliação elogiosa, apenas com algumas ressalvas que julguei fazer em relação à estrutura narrativa, mas ressaltando que a linguagem do livro fazia “O Doce Veneno do Escorpião”, de Bruna Surfistinha, parecer literatura infantil. Pelo que o próprio Bia, como o autor, morador da cidade paulista de Americana, é conhecido, a resenha acabou ajudando a afastar os falsos pudores e a obra abriu caminho para a carreira do escritor, bem representada nestas "três novelas policiais sacanas", que incluem o livro já citado e também os outros dois que lhe deram suquência: "Buceta - uma novela cor-de-rosa" e "Boquete - uma novela vermelha".
  Nesse período, Bia também escreveu os livros "Virgínia Berlim - uma experiência" e "Elvis & Madona", baseado no roteiro do filme de mesmo, um caso de amor entre uma lésbica e um travesti passado em Copacabana em meio a muito sexo e violência, temas que também atravessam estas comédias mundanas. Vários personagens transitam pelas três histórias, entre eles Assis, o jornalista "das antigas", investigativo e corajoso, sempre em busca de uma matéria para desvendar as falcatruas dos poderosos locais.
Capítulos curtos, muitas tramas acontecendo ao mesmo tempo, ritmo dinâmico, o texto de Bia não só "segura" o leitor como provoca boas risadas devido ao inusitado de boa parte das situações. No final, tudo se encaixa, em todos os sentidos, afinal Bia não utiliza sexo e violência em suas histórias de forma gratuita, apenas para chocar, e sim como elementos fundamentais na vida de personagens que vivem isso na maioria das vezes como elementos de poder, ou mesmo na profissão. Em meio a cirurgias de hemorroida ou de reconstituição de hímen, de pessoas que levam uma vida sexual secreta, de matadores que cumprem suas funções como se estivessem batendo o ponto na repartição, ou mesmo em meio à descrição de relações sexuais com uma naturalidade desconcertante, o autor também consegue inserir trechos de pura ternura e amor sincero, o que dá um equilíbrio bem interessante às histórias. "Levantou e abraçou e beijou os dois - o beijo de uma filha, o mais sincero e afetuoso que pode existir".
No pequeno universo criado pelo escritor, o que sobressai é a verossimilhança com o Brasil, o país que tem como seu principal mal esta chaga chamada corrupção, que faz de grandes empresários cúmplices do poder e da violência algo extremamente banal. "A sociedade está toda corrompida, mas ninguém quer que essa corrupção desapareça: é uma corrupção que faz bem a todos". No meio do humor escrachado e de muito sexo, percebe-se uma crítica contundente à forma como é feita a política, mas sem um pessimismo exagerado, pois alguns personagens tentam empunhar a bandeira da ética, mesmo que para isso sofram ameaças e atentados.
  Da mesma forma, Bia em nenhum momento abusa de clichês, apenas quando eles são necessários em momentos de humor. O retrato dos personagens é profundo. Assim o autor descreve com detalhes a rotina do matador de aluguel, que aguarda a lista de vítimas saboreando uma dobradinha com pururuca, dos profissionais do sexo, do delegado, da redação de um jornal, da prefeitura da cidade e das pessoas poderosas da cidade, e sempre dando características peculiares a personagens secundários, como o tímido Rafael, um policial que fica boa parte do tempo em casa arrumando sua coleção dos Beatles e se apaixona por Valéria, uma doce jornalista a quem ele oferece, um arroubo de romantismo, o único prato que sabe fazer, um miojo com manjericão desidratado e recheado com ervilhas em lata.





















segunda-feira, 18 de maio de 2015

A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO


 ("A primeira história do mundo", de Alberto Mussa. Editora Record. 240 páginas)

            O primeiro assassinato ocorrido no Rio de Janeiro, no longínquo ano de 1567, quando a maior parte da cidade se encontrava no extinto Morro do Castelo, é o mote do último livro do carioca Alberto Mussa, autor premiado e traduzido para dez países e que aqui dá continuidade ao projeto, segundo ele "absurdo", de produzir uma espécie de compêndio mítico do Rio de Janeiro, que já rendeu os livros "O trono da rainha Jinga" e "O senhor do lado esquerdo".
         O crime propriamente dito, ou seja, o assassinato do serralheiro Francisco da Costa, encontrado com sete flechadas nas costas (e um ferimento nos rins, provavelmente de mais uma flechada) é o ponto de partida para uma aventura que não se limita à História do Rio de Janeiro em seus primeiros anos, mas também à mitologia indígena, tema que o autor já utilizou muito bem em outras obras e que justifica, inclusive, o título deste livro.
         As fontes documentais do assassinato, o primeiro registrado na cidade, são esparsas, sem contar que toda a estrutura jurídica e institucional do lugar ainda estava sendo montada e quem investigava era quem julgava e condenava. Desta forma, misturando ficção com fontes históricas primárias, o narrador vai conduzindo o leitor para as vidas (sempre repletas de fatos pitorescos naquela época de desbravamento de uma terra inóspita) dos dez suspeitos do caso, das testemunhas, do modo de vida dos primeiros habitantes da cidade e das primeiras batalhas pela conquista do litoral.
         O autor mergulha também na intensa mistura (inclusive sexual) de portugueses e indígenas que dariam à formação do Brasil talvez um aspecto único no mundo, tanto que o primeiro a encontrar o corpo da vítima, morta diante da mítica Casa de Pedra, foi o mameluco (mestiço de branco com índio) Simão Berquó, que também será um dos acusados.
         Como uma crônica de uma morte anunciada, para citar aqui Gabriel García Márquez, que nos deixou recentemente, o narrador já deixa bem claro, nas primeiras linhas, quem morreu, onde morreu, além de outras circunstâncias do crime, e que Jerônima Rodrigues, esposa de Francisco, parece ser a chave daquele mistério que assume proporções ainda maiores por se situar na terra bruta do início da ocupação da cidade, onde os muros da cidadela protegiam seus moradores dos perigos do mundo desconhecido, que tanto podiam surgir nas flechadas das tribos inimigas como em um ataque de onça, animal que assume um papel importante na mitologia tupi. Ali a realidade era hostil e a qualquer momento podia desaguar em violência. "Numa cidade onde há mais homens que mulheres, não pode haver virtude".
         A própria natureza dos dez acusados revela a imensa variedade nas origens daquela gente, entre nobres degredados, piratas franceses, perseguidos pela Inquisição, homens gananciosos e libidinosos, que se envolviam sem pudor com as nativas, experimentavam drogas alucinógenas e participam dos rituais indígenas (inclusive os antropófagos), um material riquíssimo para os tantos relatos de viajantes que estiveram na costa brasileira neste primeiro século de ocupação.
         No fim das contas, o que mais importa na narrativa acaba nem sendo o crime em si e sua correspondente investigação (ou devassa), e sim todas as circunstâncias das quais o narrador se apropria para apresentar um painel da vida brasileira do século XVI. Mas para quem quiser ver o livro também no seu aspecto de romance policial, alguns dos seus elementos clássicos estão lá, inclusive com citações a dois mestres do gênero, Edgar Allan Poe e Agatha Christie.    
         Alberto Mussa vai conduzindo o leitor a um final repleto de possibilidades, em uma narrativa que flui leve em meio a tantas informações, sejam reais ou fantasiosas, e estimula a imaginação ao nos levar a um Rio de Janeiro que se limitava a um espaço tão estreito, e a cujo maior símbolo, o Morro do Castelo, nem existe mais, demolido na década de 1920. Além disso, ele nos faz ver a História sob o ponto de vista também da gente da terra, dos nativos que aqui já estavam, com suas culturas, suas lendas (entre elas a das amazonas, as mulheres sem marido, sem dúvida a mais saborosa do livro), as muitas guerras e os rituais, além de um rico vocabulário, presente até hoje em boa parte dos nomes que encontramos no país. Não à toa o autor dedica o livro também "às mulheres anônimas da minha linhagem materna - mamelucas e índias de quem herdei o sangue e o Espírito Tutelar que sopra em meus ouvidos".

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

VOU TE CONTAR - 20 HISTÓRIAS AO SOM DE TOM JOBIM

          


          Lançado para marcar os 20 anos da morte de Tom Jobim, ocorrida em 8 de dezembro de 1994, "Vou te contar - 20 histórias ao som de Tom Jobim" (Rocco) reúne contos de autores contemporâneos baseados em músicas do grande compositor. É uma homenagem bem apropriada, pois, como diz Ruy Castro na contracapa, Tom respeitava a palavra tanto quanto as notas musicais, e o que vemos aqui é uma reverência feita, com muito talento, a um dos grandes nomes da cultura brasileira.
        Organizado por Celina Portocarrero, o livro segue a ordem alfabética dos autores, de Adelice Souza a Vinicius Jatobá, que faz uma leitura original de "Águas de março", repleta de imagens poéticas espalhadas em um ritmo dinâmico. Já Adelice pontua seu conto com o primeiro verso de "Wave", Vou te contar, que inicia os parágrafos de uma história que mistura romantismo, praia e um amor estrangeiro que recebe o aval da rainha do mar. "Deixei os pés se molharem e a água nada ondulada lambia os joelhos e uma parte das coxas. E fiquei ali, ainda enxutos o sexo e o ventre, o olhar a pasmar-se no meio da secura fria. Agradecia, agradecia, agradecia".
     Entre Adelice e Vinicius circulam nomes como Claudia Nina,  Susana Fuentes, Lúcia Bettencourt, Marilia Arnaud, Angela Dutra de Menezes, Silviano Santiago, Henrique Rodrigues, Branca de Paula, Danielle Schlossarek e Mirna Brasil Portela, que faz de seu conto "Ligia" uma história de desespero dentro de um avião em turbulência, o clímax onde nada mais resta a não ser um surpreendente beijo na boca.
     O livro não traz as letras completas das músicas que inspiraram os autores, é uma opção editorial, o que de certa forma dá uma liberdade até maior para que os contos sejam, de fato, a recriação de cada canção de Tom Jobim. Assim, em alguns casos, não há, dentro do texto, nenhuma referência explícita à letra da canção que inspirou o conto, mas podemos observar, aqui e ali, um clima, um ambiente que nos remete à fonte daquela história.
        Homenagear um grande artista fora da sua área específica é sempre um risco de se "errar a mão", de se produzir algo completamente fora de contexto, mas não é o que se vê aqui. Os autores entraram no universo do compositor, acompanhados de uma edição caprichada e as belas fotos de Isabel De Nonno, que ilustram a capa e o início de cada conto.
       Como Vinicius de Morais, o principal parceiro musical de Tom, já disse numa canção, "a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida", e é exatamente o que vemos aqui nestas pequenas narrativas, que também podem ser encontros repletos de acidez, como entre pai e filho que nunca se entenderam ("Fotografia", de Carlos Henrique Schroeder), um ex-casal com muitas arestas por aparar ("Você vai ver", de Antonio Carlos Viana), a mulher que aguarda, na melancolia de uma praia onde tudo mudou, o encontro acordado trinta anos atrás ("As praias desertas", de Marcelo Moutinho), ou a filha que resolve encarar o passado e rever o pai que abandonou a família ("Espelho das águas", de Monique Revillion).
         Menalton Braff, o autor mais experiente da coletânea, com seus 20 livros publicados e um prêmio Jabuti na bagagem, escreve um conto sobre a descoberta do amor, aquele amor que deixa "minha testa úmida, minhas mãos encharcadas, meus olhos mergulhados numa nuvem densa" e que pode, ou não, se materializar em um encontro (novamente ele). E é o amor que sustenta, de fato, boa parte das histórias, o amor de Tom Jobim pelas pessoas, pela natureza, pela arte, enfim, pelo seu querido Rio de Janeiro. "Dizem que a maior solidão é a de quem está no meio de uma multidão. Naquele momento, ele tinha certeza de que a maior solidão era aquela de quem tem dúvidas acerca do amor, estando ao lado da pessoa supostamente amada" ("Vivo sonhando", de Danielle Schlossarek).

RIO NOIR



Rio Noir - (coletânea de contos editada por Tony Belloto) - Casa da Palavra - 304 páginas.

         "Rio Noir" é a versão carioca de uma série de livros de sucesso nos Estados Unidos, publicada pela editora Akashic Books e que reúne contos noir de escritores do gênero (ou não) ambientados em alguma cidade escolhida para aquela edição. Como a ideia deu muito certo, a editora ampliou a coleção para cidades de outros países, como esta que traz a cidade do Rio de Janeiro como cenário - a primeira publicada no Brasil, feita em parceria com a Casa da Palavra e organizada por Tony Belloto, músico do grupo Titãs e já bastante experiente no tema com seus livros protagonizados pelo detetive Remo Bellini.
         A literatura noir teve seu auge nos Estados Unidos em meados do século passado, graças a autores como Raymond Chandler, Dashiell Hammett (do clássico "O falcão maltês") e James Ellroy e se caracterizou principalmente por fugir ao padrão da trama policial comum, onde os personagens são muito bem demarcados. No ambiente noir, o clima é outro, há humor, há crítica política e comportamental, os detetives são durões, mas sensíveis, gostam de jazz, boa literatura e bons restaurantes, seus auxiliares costumam ser pitorescos e muitas vezes "roubam a cena". As mulheres são sensuais e determinadas (geralmente louras) e os diálogos ágeis e muito bem escritos. Sem contar, obviamente, o clima sombrio, com muito nevoeiro e becos escuros (noir significa preto, em francês). Um fã do gênero é o cineasta Quentin Tarantino, que no filme Pulp Fiction fez uma homenagem ao livro e filme noir, inclusive no título, já que pulp fiction era o tipo de publicação inicial da literatura noir, feita em formato de bolso, com papel barato e que poderia ser vendida em tudo que era lugar.
         Para transportar a literatura noir ao Rio de Janeiro, foram convidados 15 autores, alguns já dominando o gênero da literatura policial, como Luiz Alfredo Garcia-Roza, o próprio Tony Belloto e o jovem Raphael Montes, sucesso de vendas com seus romances "Dias perfeitos" e "Suicidas", além de nomes conhecidos na imprensa carioca, como Arnaldo Bloch, Arthur Dapieve e Guilherme Fiúza (que afirmou nunca ter escrito um conto antes deste livro), e autores importantes da literatura contemporânea, como Adriana Lisboa e Flávio Carneiro. Não poderia faltar, é claro, Luis Fernando Verissimo, criador do impagável detetive Ed Mort e que ambienta seu conto no bairro de Bangu, onde um duplo assassinato ocorre ao lado de um manuscrito de poesias intitulado "A hora das sombras compridas": "Uma das poucas coisas no apartamento que não estavam respingadas de sangue".
         O resultado é muito bom, com os autores criando suas histórias exatamente em cima do contraste entre as belezas naturais da cidade e a tão decantada hospitalidade dos cariocas e seu espírito festivo com o que se esconde (ou nem tanto) neste "purgatório da beleza e do caos", como já cantou Fernanda Abreu.
         Assim, cartões-postais consagrados da cidade surgem como cenários de situações que nenhuma agência de turismo iria publicar em "folders" promocionais, como o dedo que a personagem criada por Victoria Saramago encontra numa caminhada na Floresta da Tijuca ("Ponto Cego"), o corpo caído no Morro do Corcovado, com direito a um típico nevoeiro noir ("Táxi argentino", de Arthur Dapieve), o famoso litoral da zona sul esquadrinhado por um gigolô disposto a observar "as burguesinhas do Leblon, as bichas da Farme, as gringas de Copacabana e as coroas cachorras do Leme" ("Coroas saradas", de Tony Belloto), e mesmo o canibal da Rua Canning, um coronel reformado do Exército que acreditava estar curado de certos hábitos ("Canibal de Ipanema", de Alexandre Fraga, que além de escritor é policial federal).
         Embora o tráfico de drogas esteja ligado a boa parte dos crimes no Rio, poucos autores o utilizam em suas histórias. O que sobressai mesmo é o clima noir das histórias e suas referências, seja no caso de Adriana Lisboa, que em "O enforcado", história passada no Largo do Machado, nos lembra "A cartomante", um dos grandes contos do mestre Machado de Assis, ou Flávio Carneiro, que em "A espera", narra uma história sem nenhuma cena de violência, mas cheia de deduções criativas e interessantes do Gordo, dono de um sebo na Rua do Lavradio e que ajuda um detetive amigo seu a investigar o homem que segue todo dia uma funcionária do setor de Obras Raras da Biblioteca Nacional e fica parado encostado num poste, jornal embaixo do braço, em frente ao prédio dela. Mais noir, impossível.




















domingo, 4 de janeiro de 2015

ESCRITOS SOBRE ESPAÇO E HISTÓRIA



(Publicado no caderno "Prosa", do jornal "O Globo", em 27 de dezembro de 2014)

Escritos sobre espaço e História - Maurício de Almeida Abreu (organizado por Fania Fridman e Rogério Haesbaert - 464 páginas


          O geógrafo Mauricio de Almeida Abreu é lembrado principalmente por dois livros clássicos, “Evolução urbana do Rio de Janeiro” e “Geografia histórica do Rio de Janeiro”, este último uma obra que levou 15 anos de pesquisa e foi concluída em 2011, mesmo ano da morte do autor. Uma grande contribuição ao estudo deste importante intelectual brasileiro é dada agora, com a reunião de nove artigos seus que estavam espalhados em outras publicações, trabalho organizado pelos professores Rogério Haesbaert e Fania Fridman.
          Os artigos são variados, com um amplo espaço dedicado ao desenvolvimento do estudo da geografia no Brasil no século XX. O autor enfatiza a marcante influência da geografia francesa, passando pela criação da Associação dos Geógrafos Brasileiros e do Conselho Nacional de Geografia, nos anos 1930 (década em que foi implantado o curso superior de Geografia), e a consolidação da profissão com as assembleias gerais da AGB, nas quais havia um espaço prioritário para o trabalho de campo, o “motor principal da pesquisa geográfica” e ponto de partida para as primeiras teses importantes da disciplina no Brasil.

OLHAR SOBRE O PASSADO

          Abreu também esclarece no artigo “Sobre a memória das cidades” o que chamou de “ditadura do presente”, que durante muito tempo estabeleceu de forma arbitrária que à Geografia coubesse apenas analisar o presente, enquanto as dimensões temporais e históricas do espaço seriam função apenas da História. “Não há lei proibindo, e nada impede que a geografia estude o passado”. Para o autor, a busca da identidade dos lugares são, principalmente, uma busca de suas raízes, de seu passado, que pode se dar pelos vestígios materiais (construções da época ou aspectos da natureza) e nas instituições de memória (museus, bibliotecas etc).
          No livro, percebemos como foi árduo o trabalho de diversos teóricos para tornar a Geografia uma disciplina autônoma, já que no início vários aspectos de seu estudo eram conflitantes com ramos da História, das Ciências Sociais e da Ecologia Humana. A influência do neopositivismo e a criação do IBGE deram à Geografia um papel importante nos sistemas de planejamento nacional instalados a partir do golpe militar de 1964, embora, a partir da abertura política, nos fins da década de 1970, o pensamento crítico em relação ao modo de produção capitalista e suas consequentes tensões sociais ganhasse cada vez mais espaço nas universidades. “A luta pela apropriação da terra urbana pelas camadas mais pobres da sociedade também despertou o interesse dos geógrafos críticos, levando-os inclusive a participar, de forma engajada, desse processo”, escreve.
          Um capítulo indispensável a quem estuda a organização fundiária do Brasil desde a colonização é “A apropriação do território no Brasil colonial”, no qual Abreu dá uma aula sobre como se deu a distribuição de terras no Brasil, mostrando a ligação entre Estado e Igreja Católica neste processo, com a Coroa Portuguesa e a Ordem de Cristo exercendo o “domínio temporal e espiritual” das terras conquistadas além mar. Além disso, há uma série de definições bem precisas sobre palavras e expressões presentes na pesquisa como vila, arraial, termo, fogos, sesmarias, correição etc.
          Em outro capítulo, “Pensando a cidade do Brasil no passado”, o autor questiona Sérgio Buarque de Holanda, que, assim como muitos pensadores da formação do Brasil, não viam nenhum método no surgimento das cidades pela administração portuguesa, o oposto do que ocorria na América Espanhola. “Ao contrário do que afirmou Sérgio Buarque de Holanda, muitas cidades brasileiras, dentre elas o Rio de Janeiro, foram decididamente um produto mental dos portugueses”. O Rio de Janeiro, aliás, tema de seu livro mais conhecido, merece destaque em outros capítulos, em temas como o abastecimento de água e a iluminação desde o período colonial, assim como a questão da habitação, sempre com reflexões instigantes e contestatórias. Como a maioria dos artigos foi publicada nos anos 1980 e 1990, fica uma frustração por não podermos discutir com ele a questão das UPPs nas favelas ou o aumento da inclusão social, por exemplo.
          O livro é indicado mesmo para leigos, pois devido ao caráter detalhista dos trabalhos de Abreu, tudo é explicado, sem contar a qualidade e a leveza de seu texto (um erro a ser corrigido numa segunda edição é a repetição de um parágrafo inteiro nas páginas 403 e 405). No final, temos uma bela homenagem ao grande geógrafo Milton Santos, morto em 2001, com quem Mauricio Abreu trabalhou na UFRJ e por quem nutria a mais profunda admiração.

*André Luis Mansur é jornalista e escritor, autor de “Fragmentos do Rio Antigo”


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/livros/anotacoes-de-mauricio-de-almeida-abreu-sobre-sobre-espaco-historia-no-brasil-14911282#ixzz3Nr65L34a 
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segunda-feira, 12 de agosto de 2013

RETRATO IRREVERENTE E LÍRICO DE LUANDA

(Publicado no caderno "Prosa", do jornal "O Globo", em 10 de agosto de 2013)

Os Transparentes – Ondkaki – Companhia das Letras – 408 páginas - R$ 46


           Desde a guerra civil que devastou o país que Angola vem apresentando ao mundo literário uma gama de autores expressivos, donos de livros contundentes, que vão às raízes de um povo sofrido pelo violento colonialismo português e muitos anos de guerra civil, mas que não perde a esperança e o bom-humor, duas características das obras de gente como Pepetela, Luandino Vieira, José Eduardo Agualusa e o mais jovem deles, Ondjaki, nascido em 1977 e que após algumas bem-sucedidas incursões pela literatura infanto-juvenil (como "AvóDezanove e o segredo soviético", da Companhia das Letrinhas, Prêmio FNLIJ de 2009 e Prêmio Jabuti, de 2010) lança "Os transparentes", retrato realista e com muitas doses de irreverência de sua querida Luanda, uma cidade que "fervia com a sua gente que vendia, que comprava para vender, que se vendia para depois ir comprar e gente que se vendia sem voltar a conseguir comprar".
         O estilo que o consagrou com diversos prêmios literários, inclusive no Brasil, onde mora atualmente, está todo aí no texto leve, de diálogos ágeis e personagens bem caracterizados numa poesia "disfarçada" de prosa e diluída em várias situações do dia a dia da quente capital angolana. O microcosmo é um prédio quase sempre às escuras, com um vazamento de água crônico no primeiro andar e um cinema improvisado no terraço, o GaloCamões, nome justificado pela presença distante e serena de um galo cego de um olho. É deste prédio que saem os personagens que farão a história girar e é para lá que tudo se dirige, principalmente o mirabolante projeto do corrupto governo de buscar petróleo no instável subsolo da cidade-capital.
         Ondjaki nomeia seus personagens quase como arquétipos de um passado que se perdeu diante da modernidade destruidora de tradições. Assim, MariaComForça, VendedorDeConchas, CamaradaMudo, Cego, Carteiro, Ministro, ZéMesmo e CienteDoGrã, entre tantos outros, tentam sobreviver das migalhas que sobram do tal desenvolvimento econômico. Em alguns momentos, principalmente devido à linguagem cheia de ginga e detalhes pitorescos, lembra o nosso grande João Antônio, cujos personagens Malagueta, Perus e Bacanaço poderiam tranquilamente ser moradores do prédio do Largo da Maianga e transitar pelas mesas de sinuca dos “muquinfos” da capital de Angola.
         Outra referência inevitável da literatura brasileira que salta aos olhos aqui é Jorge Amado, com seus pinguços a beber o dia inteiro nas biroscas de Ilhéus e a dizer coisas espirituosas, semelhantes a figuras como  JoãoDevagar e o Esquerdista, frequentadores da BarcaDeNoé e sempre à espreita de alguém com "cumbú" para pagar um trago. Outro traço de identificação com o autor baiano é a religiosidade de personagens como a AvóKunjikise, que fala "coisas adivinhadas e sabidas há muito" no seu umbundu, a língua que para os que não a entendiam ela olhava bem nos olhos quando falava.
         Luanda, em boa parte do livro, aliás, lembra bastante o Brasil, com sua burocracia e corrupção desenfreadas, exclusão dos mais pobres, obras que beneficiam grandes empresas e passam por cima do passado da cidade, o improviso e o jogo de cintura para se conseguir as coisas e o consumismo exagerado de produtos como "éme pê três e quatro" e "telemóveis de última geração com serviços que ainda não eram oferecidos pela operadoras nacionais". Ondjaki representa bem um povo que ainda sofre para buscar sua identidade e vive sob um governo que anuncia, em rede nacional, com toda a pompa, que está cancelando o próximo eclipse (!).
         As diversas situações criadas por ele na narrativa, que na segunda metade até esbarram em um humor um pouco excessivo, vão caminhando para um final delirante, com pitadas de literatura fantástica, principalmente sob a (pouca) pele de Odonato, personagem que sofria de uma "desorganização de saudades" e vai ficando literalmente transparente desde que deixara de comer, "a vida libertou-me aos poucos do fardo da fome e da dor". A devastação que a cidade sofre em suas entranhas pelas máquinas da Cipel (Comissão Instaladora do Petróleo Encontrável em Luana) é a mesma que seus moradores pobres sofrem todos os dias, restando, apesar do esforço em superar os muitos problemas e levar a vida com um pouco de prazer, uma melancolia não disfarçada, mesmo que o autor a sublime com momentos do mais puro lirismo.


  

terça-feira, 5 de julho de 2011

CENAS FAMILIARES NA PROSA DE MARILYNNE ROBINSON


(Publicado no caderno "Prosa & Verso", do jornal "O Globo" (versão online), em 6 de dezembro de 2010)

"Em casa", de Marilynne Robinson. Tradução de Adriana Lisboa, Editora Nova Fronteira, 400 páginas. R$ 39,90

Autora do premiado romance “Gilead”, a americana Marilynne Robinson dá nova vida a seus personagens neste livro, desta vez centrando a trama no que restou da família do reverendo Robert Boughton, um homem à beira da morte que recebe a visita de dois de seus filhos na casa que um dia foi cheia de barulho e alegria e que agora abriga apenas melancolia e saudosismo, com todos os seus móveis e utensílios ainda como sempre estiveram. “O passado é muito bom, quando mantido em seu lugar”.

Apesar de ser um risco recriar personagens de um livro de sucesso, a escritora acerta a mão de novo, até porque “Em casa” pode ser lido tranquilamente sem a sombra da história anterior, como ressalta a autora: “Após escrever um romance ou um conto, sinto saudades dos personagens — é como se eu estivesse de luto”.

Glory é uma destas personagens. Professora quase quarentona, ela se vê num momento de indecisão e falta de perspectivas na vida, enquanto Jack, o caçula de todos, personagem criado com uma envolvente aura de mistério, sempre calado, que sumia de casa sem qualquer motivo aparente, agora retorna à casa quase vazia, para espanto e admiração do pai enfraquecido e da irmã com quem nunca teve muito contato. Perguntas são proibidas e, aos poucos, o constrangimento e a falta de tato vão sendo substituídos por uma atmosfera de confiança, ainda que relutante.

Jack sintetiza aquilo que dizem haver em toda família, a tal da “ovelha negra, o imprestável, que não se notava nas fotografias”. Ele parece ter plena consciência disso: “Não quero que vocês deem a mínima para mim. Nenhum de vocês. Nunca quis”. Jack não compartilha dos rituais e também não se sente estimulado a se abrir, a contar seus desejos e suas frustrações exatamente pela falta de um interlocutor confiável. Talvez o único momento em que tenha se sentido realmente “em casa” é quando não há mais o burburinho familiar e Glory assume o papel da interlocutora que ele nunca teve, os dois unidos em torno do pai ainda rigoroso apesar da saúde frágil. Na casa silenciosa, o som das coisas simples, como o de uma faca cortando a maçã, ganha contornos nunca percebidos antes, quando não se tinha tempo para a reflexão e o exercício da sensibilidade.

O esforço de Jack em se integrar, inclusive em relação à vizinhança, com quem mantém uma postura de estranheza, passa pelas discussões religiosas com o reverendo Ames, amigo de seu pai e que, como todos os outros, nunca viu com bons olhos o fato de Jack ser diferente dos demais membros da pequena e conservadora comunidade localizada no estado do Iowa. Ao voltar de onde ninguém soube que ele tinha ido, Jack esconde uma vida sentimental nebulosa e inclinações políticas perturbadoras para o local, como a sua preocupação com os problemas raciais.

O texto é leve, ameno e sem grandes reviravoltas no enredo. A rotina da família Boughton pode ser vivida em qualquer parte do mundo, com qualquer um de nós, e é esse o motivo pelo qual a trama criada por Marylinne Robinson, apesar de excessivamente longa, cria afinidade mesmo em terras tão distantes. Coincidência ou não, a tradução é de Adriana Lisboa, escritora que iniciou sua carreira de merecido sucesso justamente com um livro que tem a memória como personagem principal (“Os fios da memória”, Editora Rocco, 1999) e que deve ter se sentido bem à vontade ao transpor para a nossa língua o ciclo da família Boughton, cujo desfecho é um autêntico retorno às origens. “Lar. Que lugar melhor poderia existir na Terra, e por que parecia a todos eles um exílio?”

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O MUNDO, DE JUAN JOSÉ MILLÁS


(Publicado no caderno "Prosa & Verso", do jornal "O Globo", em 5 de junho de 2010)

O mundo – Juan José Millás – Tradução: Marcelo Barbão - Planeta Literário – 216 páginas – R$ 44,90


Todo mundo que teve infância (e acredito que todos tiveram, boa ou má) vai se identificar com a autobiografia de Juan José Millás, um dos melhores escritores espanhóis da atualidade e que centra suas memórias neste período da vida em que o sonho e o real se misturam e se condensam numa atmosfera de medo e esperança. “Minha mãe não consertou a realidade, o que demorei muito tempo para perdoar”.

O livro nasceu de um texto que Millás, que também é jornalista – ou periodista, na sua língua natal – iria escrever para o jornal espanhol “El país”, mas...“Não fui capaz de fazer a reportagem: acabava de ser atropelado por um romance”.

Apesar da pobreza impiedosa, que se manifestava nas roupas de segunda mão e na falta de proteção contra o frio desumano da infância, “que não desaparece nunca”, o menino Juanjo se protege na imaginação – matéria prima de qualquer escritor. Assim, o garoto cria o seu mundo à parte, descobrindo que o dono da quitanda é um agente da Interpol, que os mortos vivem num bairro vizinho e morre de medo de que a qualquer momento seja preso por ter furtado uma nota de cinco pesetas da carteira do pai. “O medo dos mais velhos produz pavor nos pequenos”.

É uma autobiografia com respingos de ficção, uma vez que em vários momentos ficamos na dúvida se o que o autor conta é a mais pura realidade ou se não é nada mais do que pura criação, tudo de uma forma bem sutil, nos apresentando uma história que se sustenta sem a necessidade de ser rotulada e que só perde a força quando o autor descreve longamente histórias lidas que o influenciaram de alguma forma, como um trecho da revista Seleções, da Reader´s Digest, cujo detalhamento excessivo dos trechos citados quebra o ritmo da narrativa, justamente quando o livro vai se aproximando do final.

O sexo, matéria fundamental de qualquer livro que trate deste período da vida em que a testosterona está saindo por todos os poros, não aparece de forma explícita, nem mesmo o desejo por ele. Há referências aqui e ali para a inevitável masturbação adolescente e algumas roçadas de pernas no banco do colégio com a colega que muitos anos mais tarde iria pedir um autógrafo ao escritor já famoso, como se fosse um espelho distorcido da menina que o encantava, mas que surge agora sem um dente e com um rebolado esquisito. “Ao chegar em casa, tranquei-me no banheiro e chorei, não por Luz nem por mim, mas pelas células. Foi isso que me disse absurdamente na frente do espelho”.

A descoberta da vida também era, para Millás, a descoberta da linguagem e a curiosidade que ela despertava no futuro escritor. A interrogação diante do sentido do que o pequeno Juanjo lia provocava dúvidas desconcertantes, típicas da infância, período em que associamos as palavras com as coisas da forma mais simples possível. “Por que, por exemplo, todo mundo comia lentilhas, quando o lógico era que os homens comessem lentilhos?” Para ele, consertar a realidade “era esgotador”, mas alguém precisava se ocupar disso e ele assumiu essa função, corrigindo, por exemplo, as pobres das “tardes mortas”, já que ninguém nomeava assim as manhãs e as noites, só as pobres das tardes é que desfaleciam no tédio da adolescência sem muitas perspectivas.

As memórias aqui não são apenas uma sucessão de fatos de um passado muito distante. Millás se sente fisicamente transportado para aquele período e sentindo fisicamente suas alegrias e dores, como quando escreveu sobre sua fuga da escola onde sofria castigos físicos. Com um prego machucando o pé, e correndo o risco de pegar tétano, andava pela chuva com desejo de morrer e, mesmo escrevendo confortavelmente em casa e ouvindo um disco de Bach, vivenciou aquilo como se estivesse presente no lugar, numa máquina do tempo imaginária que o levasse para onde quisesse, confundindo qualquer tipo de referência. Talvez este seja o maior mérito deste livro, o de nos mostrar que o que passou não passou e continua ali, à espreita de que tiremos a poeira e botemos pra tocar o disco ou passar o filme de nossas vidas. E tudo em alta definição.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

OS ESPAÇOS DE PODER NO RIO DE JANEIRO


(Publicado no caderno "Prosa & Verso", do jornal "O Globo", em três de abril de 2010)

Finalmente editado, estudo de Rachel Sisson mostra como três pontos da cidade definiram sua feição moderna

Espaço e poder - Os três centros do Rio de Janeiro, de Rachel Sisson. Editora Arco Produções, 147 páginas. R$ 50

Estudantes e profissionais de Arquitetura, História e disciplinas afins não precisam mais tirar cópias e mais cópias da monografia de Rachel Sisson. “Espaço e poder” finalmente está sendo lançado, numa edição ricamente ilustrada, trilíngue e que traz o selo, embora tardio, dos 200 anos da chegada da família real ao Brasil, comemorados em 2008. Mas o que o livro desta arquiteta tem para despertar tanto interesse desde que foi concluída, em 1983, e publicada na Revista Municipal de Engenharia do Rio de Janeiro?

Basicamente a resposta está no argumento bastante original da pesquisa de Rachel, apesar de tanto livros já terem sido escritos sobre a evolução urbana do centro do Rio de Janeiro, da descida do extinto morro do Castelo para a várzea, do enfrentamento de pântanos, lagos, mangues e mosquitos, dos desmontes de morros e dos aterros, que afastaram o mar e deram outro perfil à região, que permanece até hoje.

Marcos na Praça XV, Campo
de Santana e Praça Floriano


A autora enfatiza o desenvolvimento de três “centros” dentro do centro do Rio de Janeiro como fundamentais para a evolução da região e a consolidação do seu perfil moderno. Segundo Rachel, a Praça XV de novembro, o Campo de Santana e a Praça Floriano foram os espaços onde (cada um no seu tempo) a cidade não apenas evoluiu de forma mais consistente e articulada, como também definiu os seus marcos de poder, tanto políticos quanto religiosos, culturais, econômicos e outros, que lhe deram uma identidade e uma memória.

Os termos específicos da arquitetura e do urbanismo - aqui explicados de forma bem leve - são indispensáveis para se entender todo este processo. Além dos marcos e de outros jargões empregados nestas áreas, um que chama bastante atenção é o conceito de “nó”, ou seja, um “ponto de confluência de caminhos”, para usar uma definição bem simplificada.

Assim, a Praça XV, antigo Largo do Carmo, marcou a fase em que a cidade começou a descer o morro do Castelo, primeiro núcleo importante de ocupação da cidade, e a se expandir pela chamada várzea, com seus diversos obstáculos naturais, formando suas primeiras ruas, a da Misericórdia e a Direita (atual 1º de março), e ligando os morros do Castelo e de São Bento, que junto com os de Santo Antônio (quase totalmente desmontado) e o da Conceição, formavam o "quadrilátero dos morros", onde residia a maior parte da população. A autora mostra também como a concepção dos marcos do Largo do Carmo e a sua configuração seguiram o modelo do Terreiro do Paço de Lisboa, que também iria inspirar outras construções portuguesas nas suas muitas colônias.

Já bem depois daquele período, o Campo de Santana, também chamado de Campo da Cidade, foi o ponto culminante da expansão leste-oeste, principalmente após a chegada da família real e a sua consequente instalação no Palácio de São Cristóvão, forçando a construção de praticamente outra cidade, a "cidade nova", que mantém o seu nome até hoje e está prestes a ganhar a sua estação de metrô.

Ao falar da Praça Floriano, na área conhecida popularmente como Cinelândia (embora já quase não existam mais cinemas por lá), Rachel apresenta o terceiro ponto de expansão do centro da cidade, desta vez em direção à zona sul e marcando o desenvolvimento daquela região, principalmente através da avenida Beira-Mar, a maior avenida litorânea do mundo quando foi construída (5,2 km de extensão), mas que hoje não só teve o seu trajeto bastante encurtado como ficou bem longe do mar após sucessivos aterros. Antes, ela ia do obelisco da avenida Rio Branco ao antigo Pavilhão Mourisco, na então tranquila e limpa praia de Botafogo.

A rica ilustração do livro inclui fotos de satélites com demarcações mostrando como era o Rio de Janeiro quando a cidade era o próprio centro, como enfatiza a autora. Assim, vemos detalhadamente a extensão dos morros desmontados, a localização de lagoas aterradas e a imensa área conquistada ao mar pelos aterros. Um retrato perdido no passado de uma cidade que se reconstrói a cada dia.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

QUEM MATOU ELZA?


Elza, a garota - Sérgio Rodrigues - Editora Nova Fronteira - 240 páginas - R$ 29,90

Para quem domina a ficção, é irresistível preencher uma pesquisa histórica cheia de lacunas com os ingredientes literários de uma narrativa inventada. É o que Sérgio Rodrigues faz diante da conturbada vida de Elvira Cupello Calônio, codinome Elza, comunista morta por comunistas num período em que se dizia que eles comiam criancinhas com batata. No caso de Elza, foi quase isso.

Namorada de Antônio Maciel Bonfim, o Miranda, secretário-geral do PCB, Elza foi presa junto com vários camaradas durante a fracassada Intentona Comunista de 1935, uma tentativa de golpe que só aumentou o poder de Getúlio Vargas, dando-lhe subsídios para a criação do Estado Novo, em 1937, e considerada pelo jornalista e escritor Zuenir Ventura no prefácio do livro “um dos maiores erros políticos já praticados pela esquerda em toda a sua história”.

Algumas semanas depois de solta, Elza foi enforcada com uma corda de varal no bairro carioca de Guadalupe (na jurisdição atual) pelos próprios comunistas, que a acusavam, junto com Miranda, de traição, e enterrada dentro de um saco de aniagem no quintal da casa. “É tão fácil matar quem está na clandestinidade!”

A própria idade de Elza é um mistério, oscilando entre 16 e 21 anos. Segundo os legistas que a examinaram, ela teria “um corpo em formação”, embora o processo do Tribunal de Segurança Nacional mencione 21 anos. O mesmo tribunal condenou Luiz Carlos Prestes, o grande nome do comunismo brasileiro, denominado “cavalheiro da esperança”, e mais seis pessoas a 30 anos de prisão pela morte de Elza. Todas estas penas foram suspensas pela anistia de 1945.

Prestes não teria participado da execução, mas a ordenado da prisão, o que configura mais uma capítulo polêmico de sua biografia, assim como, ao conquistar a liberdade, passou a apoiar Getúlio Vargas, o algoz de sua esposa Olga Benário Prestes, entregue, grávida, de mãos beijadas para ser morta num campo de concentração nazista.

O maior mérito de Sérgio Rodrigues neste livro é superar a difícil tensão entre ficção e realidade, que caminham lado a lado, disputando espaço e instigando o leitor a imaginar as peças que faltam neste quebra-cabeças polêmico, confuso e cruel. Assim, o autor conta de forma harmônica duas histórias paralelas: uma, a pesquisa baseada em documentos e entrevistas, e a outra, um quase monólogo do ex-comunista Xerxes, de mais de 90 anos, que teria conhecido Elza (até chegou a trocar beijos com ela), diante do jornalista Molina, contratado por Xerxes para escrever a sua história.

Na verdade, Sérgio Rodrigues parece usar a ficção para compensar a falta de informações confiáveis sobre a vida de Elza, que o levaram a vasculhar arquivos e descobrir, por exemplo, uma carta falsa escrita pelo temido Filinto Muller, chefe de polícia de Getúlio Vargas; a viajar a Sorocaba, terra natal de Elza, e a entrevistar pessoas que viveram e conheceram bem a época, mas que não lhe deram muitas certezas. Xerxes, provavelmente, simboliza o percurso de Sérgio nesta pesquisa: “O que todo mundo sabe sobre a Intentona é necas, xongas”.

Os dois personagens criados são bem interessantes e desenvolvidos com muita habilidade, já que o autor é bastante atento ao ambiente que os cerca, a sala do apartamento de Xerxes, na zona sul carioca, e também às interrupções, como alguma tosse, a chegada de Maria, a empregada, os devaneios do interlocutor, enfim, tudo que consiga dar um ritmo mais dinâmico a um, como já foi dito, quase monólogo.

O entrevistador, que quase não dá pitaco na história, é o típico jornalista de meia-idade frustrado, duro, morador de um pequeno apartamento decadente e cheio de livros, mas que tem o seu charme, uma namorada 20 anos mais nova e que lhe dá o suporte emocional que precisa. Fã incondicional da antiga série de TV “Além da imaginação”, Molina costuma dar longos passeios pelo Rio, apesar das intempéries que encontra pelo caminho, como o busto de Getúlio Vargas no bairro da Glória, bem em frente à casa da namorada e que surge como uma metáfora da história que ele pesquisa, “o emblema definitivo de todas as desproporções, aleijões e fealdades que a intervenção humana tinha infligido à paisagem natural daquela que um dia fora a mais bela cidade do mundo”.

Para Xerxes, comunista desencantado, “o filho-da-puta de extrema direita sabe que é um filho-da-puta”, mas o de esquerda, respondendo a uma pergunta de Molina, “se acha mais puro que São Francisco de Assis”. Suas revelações típicas de quem não conseguiu se adaptar a um mundo desprovido de sonhos acabam se revelando uma grande surpresa ao final do livro enquanto Elza, a garota, continua sendo um dos muitos cadáveres insepultos da História política brasileira.

AMIZADE DE OURO


(Publicado no caderno "Prosa & Verso", do jornal "O Globo", em 21 de março de 2009)

Livro reúne cartas de Machado de Assis a Mário de Alencar

“Empréstimo de ouro – Cartas de Machado de Assis a Mário de Alencar” – Organização, introdução e notas: Eduardo F. Coutinho e Teresa Cristina Meireles de Oliveira – Ouro sobre azul - 128 páginas – R$ 75

Ilustres desconhecidas para a geração do e-mail, as cartas eram o meio de comunicação mais utilizado no final do século XIX, entregues rapidamente por mensageiros – que muitas vezes aguardavam pacientemente a resposta. Machado de Assis as empregou muito bem, e em grande quantidade. Este livro, que ainda pega carona nas efemérides do centenário do grande escritor no ano passado, reúne 22 cartas enviadas por Machado a Mário de Alencar, filho de seu grande amigo, o escritor José de Alencar e recebido por Machado, já no final da vida, como “empréstimo de ouro”, para justificar o título.

As 22 cartas, escritas entre 1902 e 1908, ano de sua morte, não trazem lá muita coisa de interessante. São considerações banais, cumprimentos às famílias, encontros e desencontros e recomendações mútuas de saúde (“Se um enfermo pode mostrar a outro o espelho do seu próprio mal conseguirá alguma cousa”). Mas, levando-se em conta que estamos falando de uma pessoa que fez da rigorosa discrição um estilo de vida, não há como negar que a publicação destas missivas se justifica por encontrarmos, aqui e ali, pequenas pistas e detalhes da rotina de Machado na sua então solitária casa do Cosme Velho após a morte da esposa Carolina, em 1904, após quase 35 anos de um casamento feliz.

Assim, descobrimos que para disfarçar a solidão e a melancolia provocadas pela ausência da esposa e pelos problemas de saúde, o maior escritor brasileiro passava algumas noites a jogar paciência no seu sobrado da então silenciosa rua do Cosme Velho, trabalhava em excesso em casa (inclusive aos domingos) e sofria com alguns males, descritos ao amigo de forma detalhada, mas sem esquecer a ironia, sua marca registrada. “Falta de apetite, amargor de boca e recrudescimento do corisa. Um hospital, meu querido!”. Ou então algumas considerações sobre fatos determinantes de sua própria existência, como a ausência de filhos, que poderiam diminuir a solidão. “É o que sucede a quem os possui, para compensar a felicidade de os ter”, sobre um filho de Mário que estava doente.

Organizada pelos professores de Literatura Comparada da UFRJ Eduardo F. Coutinho e Teresa Cristina Meireles de Oliveira, a edição é ricamente ilustrada, com fotos raras do Rio Antigo, reproduções em fac-símile das cartas e uma produção gráfica impecável. Pela publicação das cartas originais, notamos que, à medida que o estado de saúde de Machado piorava, as cartas vão diminuindo consideravelmente de tamanho, abreviaturas surgem aqui e ali e a letra fica bem menos legível. “Vá relevando esta letra execrável, cada vez pior que a de costume”.

Sua preocupação com a Academia Brasileira de Letras, fundada em 1897 e presidida por ele até a morte, era constante. Ainda sem sede própria, Machado ficava a par de tudo o que acontecia, dos novos candidatos, das atas, palestras, reivindicações etc. “A Academia pegou, como dizem alguns, e parece que sim.” Todos os nomes citados nas cartas merecem notas explicativas bem detalhadas, assim como ruas e logradouros do Rio, sempre citados por um escritor que amou sua cidade como poucos e adorava passear por ela. As últimas cartas revelam de forma profunda a tristeza de Machado, que já não tinha forças para “ir à cidade”, expressão que até hoje é usada por quem se dirige ao centro do Rio.

Machado viveu e morreu cercado de amigos, inclusive os da Academia. E não deixa de ser curioso notar que o escritor que criou personagens em sua grande maioria dissimulados, interesseiros e muitas vezes cruéis, tenha sido exatamente o oposto disso tudo, sempre solícito e gentil, incapaz de uma grosseria ou de incomodar os outros com seus problemas (como os de saúde, por exemplo, sempre um transtorno em sua vida). Nestas cartas, nas quais o carinho e a gentileza são as tônicas, como em toda a sua vasta correspondência, isto fica mais do que evidente. Apesar da grande tristeza pela morte de Carolina, “a dor que o dilacerou não o fez encerrar-se em si mesmo”, como diz Antonio Candido na apresentação.

Nas cartas, descobrimos também que Machado confiou a Mário a leitura de seu último livro, “Memorial de Aires”, antes da publicação. O livro é um diário do Conselheiro Aires, espécie de alter-ego do autor, e não faltou ao amigo mais novo a perspicaz observação de que Machado empregava todo o seu talento em pintar com cores belas e saudosistas sua Carolina na figura doce e honestíssima de Dona Carmo. Sem ter como recriar na realidade a felicidade da vida doméstica que viveu por quase 35 anos com sua amada mulher, Machado, como artista genial que era, a reviveu na ficção em seu último e comovente suspiro literário.

GUARDIÃO DE UMA UTOPIA PARTICULAR


Literatura da urgência - Lima Barreto no domínio da loucura - Luciana Hidalgo - editora Annablume - 252 páginas - R$ 30,00

Afonso Henriques de Lima Barreto pagou um preço alto por viver deslocado numa sociedade de convenções, formalismos e fingimentos. Pagou com a própria vida, pode-se dizer assim, uma vida marcada por percalços de todo tipo e que culminaram com a pobreza, o alcoolismo, a internação como louco e, por fim, a morte prematura, em 1922, aos 41 anos de idade. O que a jornalista Luciana Hidalgo faz neste livro, conseqüência de uma tese de doutorado defendida na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é mergulhar no deslocamento vivido por um escritor incompreendido no seu tempo e cuja obra permanece atualíssima exatamente porque as mazelas políticas e sociais denunciadas por ele, com coragem e sinceridade radicais, infelizmente continuam todas aí.

O ponto de partida do livro é o “Diário do hospício”, escrito por Lima Barreto quando ele esteve internado no Hospital Nacional dos Alienados, o primeiro hospício do país, inaugurado em 1852 por D. Pedro II e que hoje é a sede do campus da Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na Zona Sul do Rio de Janeiro. Lima esteve internado lá duas vezes. A primeira, em 1914, e a segunda em 1919/20, quando escreveu o diário. O motivo: delírios provocados pelo alcoolismo e que cessavam imediatamente assim que o escritor recuperava a sobriedade.

Era uma época em que os diagnósticos de insanidade primavam por argumentos para lá de bizarros, como comprova um estudo feito por Francisco Carlos da Fonseca Elia citado por Luciana: “(...) tanto a menstruação na mulher e as hemorróidas no homem seriam causas que muito teriam contribuído para a perda da razão na cidade do Rio de Janeiro”. O pesquisador também cita as causas morais, como emoções vivas, o terror ou o amor levado ao excesso ou contrariado.

No diário, que gerou o livro “Cemitério dos vivos”, Lima Barreto faz observações sobre a rotina do hospício, para ele muito mais um espaço onde o Estado abrigava parte do refugo social excluído da sociedade elegante da Belle Epoque carioca do que um local de tratamento. Ele expõe a sua revolta contra o Estado, a sociedade e contra si mesmo, frustrado, revoltado por não ter tido o reconhecimento literário que julgava (e merecia) ter recebido. “Ah! A Literatura ou me mata ou me dá o que peço dela”.

A partir daí, Luciana desenvolve um profundo estudo teórico baseado em dois conceitos fundamentais, a escrita de si e a literatura de si, fundamentais para se entender não apenas a obra de Lima Barreto, este “guardião de uma utopia particular”, mas também a de autores de estilos bem diferentes, como Antonin Artaud, Fernando Pessoa e dos personagens já estudados por ela em livros anteriores, como o poeta curitibano Loriel (“A arte da urgência”, com Mônica Drummond. Cultural Office, Curitiba, 2006), e o artista plástico (mesmo sem o saber) Arthur Bispo do Rosário (“Arthur Bispo do Rosário – O senhor do labirinto”. Rocco, Rio de Janeiro, 1996), que lhe valeu o prêmio Jabuti.

Dona de um excelente texto, fugindo como pode dos habituais jargões acadêmicos, Luciana Hidalgo passeia por teorias literárias, artigos sobre a loucura, considerações sobre a política brasileira e a evolução urbana do Rio de Janeiro do início do século XX, além de outros temas, fazendo de seu livro (e aí sim, um jargão acadêmico) uma obra multidisciplinar. Lima Barreto, o personagem principal, é definido aqui como um a-intelectual/a-social, ou seja, um sujeito que não se enquadrou nos rígidos padrões vigentes no meio intelectual e social da época. Também por isso, ele sempre esteve em busca do a-lugar, o espaço onde poderia conseguir, talvez, a alforria do eu, para usar uma expressão da autora.

Infelizmente, como explica Luciana, este espaço Lima Barreto nunca encontrou. E o deslocamento que o acompanhou desde a infância, quando ele, um menino negro, pobre e morador do subúrbio, se interessava por literatura, se radicalizou a partir do primeiro livro, “Recordações do escrivão Isaías Caminha”, quando desancou toda a grande imprensa e passou a ser evitado nas rodinhas intelectuais.

Desta forma, a grande frustração de Lima Barreto, frustração esta intransponível e que o levaria ao alcoolismo e à decadência física, foi mesmo a falta de reconhecimento ao seu imenso talento literário, tanto da sociedade que ele tanto criticava (o que seria mais ou menos óbvio) quanto dos seus pares, negros ou mulatos, pobres e suburbanos como ele, que não liam (ou não sabiam ler) e permaneciam numa apatia e submissão revoltantes para o escritor diante da corrupção, dos problemas sociais e das arbitrariedades que ele tanto denunciava.

Ao usar conceitos como a escrita de si e a literatura de si, Luciana Hidalgo abriu um outro olhar sobre Lima Barreto, o “escritor do povo”, assim como a literatura da urgência, termo que dá título ao livro, foi a defesa e o ataque do escritor no seu momento mais crítico, o da internação, quando seu corpo passou a ser propiedade do Estado e ele só pôde contar com a pena e o papel para se manter “en garde”, como ela diz, contra tudo o que sofria.

Luciana demonstra, de forma clara, como a loucura, que também acometeu o pai de Lima Barreto, esteve sempre presente em sua obras, e em como o escritor misturou vida e ficção em personagens como Policarpo Quaresma, Leonardo Flores, Gonzaga de Sá e Vicente Mascarenhas, de “O cemitério dos vivos”. Na época, este tipo de literatura não foi absorvida, ou entendida, ainda mais exposta até as vísceras por um sujeito radical nas opiniões e que vivia bêbado e maltrapilho. Mas agora, com esta obra singular, Lima Barreto pode, ainda que tardiamente, ter encontrado um espaço singular, talvez o seu tão desejado a-lugar na literatura brasileira.

Luciana Hidalgo nasceu em 1965, no Rio de Janeiro . É doutora em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), atualmente com Bolsa de Pós-Doutorado da Faperj, dando aula no curso de Letras da mesma universidade . É autora do livro Arthur Bispo do Rosario – O senhor do labirinto (Rocco, 1996/ Prêmio Jabuti , 1997), que foi recentemente adaptado para o cinema ( com roteiro de Luciana Hidalgo, Geraldo Motta e José Joffily) e será lançado em 2009. Formada em Comunicação Social , trabalhou como jornalista no suplemento literário Prosa & Verso , do jornal O Globo , e no Jornal do Brasil ( revista Programa e Caderno B), entre outros veículos . Dirigiu e editou a revista Gesto , publicação de ensaios sobre o tema corpo nas áreas de literatura , filosofia etc.

PODER PITORESCO NO CATETE


Publicado no caderno "Prosa & Verso", do jornal "O Globo", em nove de agosto de 2008)

Livro de Isabel Lustosa sobre episódios divertidos de presidentes ganha reedição

“Histórias de presidentes – A república no Catete (1897-1960) – Isabel Lustosa – Editora Agir – 296 páginas – R$ 39,90

Uma das recomendações da esposa do presidente Campos Sales, que estava saindo do poder, para a filha mais velha do novo presidente Rodrigues Alves era sobre a lavagem de roupa suja (literalmente) no Palácio do Catete, então sede do poder. D. Catita deveria “começar lavando a roupa fora até poder ajuizar por si mesma se convém fazer esse serviço em casa” e recebia a indicação de uma lavadeira muito séria, pontual e que “lava e engoma bem”.

O que parece uma amena conversa de comadres no distante ano de 1902 era, na verdade, uma importante recomendação na passagem do mais alto cargo do Brasil republicano, que de 1897 a 1960 foi representado no Palácio do Catete, na Zona Sul do Rio, tema do primeiro livro da historiadora Isabel Lustosa, lançado em 1989 para marcar os cem anos da república no país e que é relançado agora.

O que torna o texto leve e bastante espirituoso, apesar de a autora não descuidar do conteúdo, é que há bastante espaço para o acervo de revistas como “O Malho”, “D. Quixote”, “A bruxa” e “O tagarela”, nas quais nomes como Angelo Agostini, J. Carlos e Raul Pederneiras usaram seus inspirados bicos de pena para traduzir de forma divertida, criativa e muitas vezes acompanhada de rebuscamento literário a situação política do país. “O atual presidente é Prudente de Morais...uma pergunta ´prudente´: Demorais?”

No retrato que faz dos governantes que passaram pelo Catete, todos adornados com seus respectivos, e nem sempre respeitosos, apelidos, Isabel Lustosa, que também se valeu de muitos livros, jornais, marchinhas de Carnaval e depoimentos de outros historiadores, ressalta também o aspecto rigoroso de muitos desses presidentes no trato com o dinheiro público. O serviço doméstico, no palácio, durante um bom tempo foi custeado pelo presidente. Venceslau Brás, que governou o país de 1914 a 1918, pediu um corte de 50% no seu salário e conseguiu 20%. O mesmo Venceslau que tinha uma notória fama de pão-duro, tanto que ganhou do poeta Emílio de Meneses este “epitáfio em vida”: Morrendo verificou estarem dez velas acesas/Levantou-se, reclamou: Parcimônia nas despesas!”

O Palácio do Catete, que teria no suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, descrito com detalhes pela autora, seu momento mais trágico, vai deixar de ser o principal cenário do Brasil republicano em 21 de abril de 1960, quando Juscelino Kubitschek inaugura a nova capital, Brasília, e o Palácio do Planalto. JK, aliás, rompe o aspecto meio que provinciano de se governar do Palácio do Catete, já que inaugurou o “estilo aéreo” de governar e passou boa parte do seu mandato viajando pelo Brasil. Mas mesmo assim, quando estava no Catete, na hora do almoço, não deixava de pedir sua marmitinha da d. Etelvina com a simples e tradicional comida mineira. Mais caseiro que isso, impossível.

A autora acerta ao enfatizar situações que vão causar uma inevitável comparação com os dias atuais, em que o poder presidencial está longe demais do povo, tanto física quanto emocionalmente. “Não se juntarão mais diante dos portões os manifestantes, não sofrerá mais a ameaça dos canhões quando estourarem as revoltas”. Naquela época, o chefe de Estado ficava mesmo era no palácio despachando, de onde muitas vezes o povo podia vê-lo numa das suas muitas janelas e aos domingos encontrá-lo num passeio com a família pela Praia do Flamengo – ainda bem antes do aterro.

Desta forma, o livro acaba provando que, apesar das roupagens e dos cenários diferentes, o poder e seus representantes acabam se manifestando sempre da mesma forma. A maior prova disso é o lema do presidente Nilo Peçanha, em 1909? “Paz e amor”. Qualquer semelhança com o “lulinha paz e amor” do atual presidente, com certeza, não será mera coincidência.

ABBOTT, O MAIS BAIANO DOS INGLESES


(Publicado no caderno ´Prosa & Verso´, do jornal "O Globo", em 26 de abril de 2008)

A história do homem que se tornou figura central para a medicina no Brasil

O diário de Jonathas Abbott,
de Fernando Abbott Galvão. Editora Francisco Alves, 528 páginas. R$ 44

Jonatthas Abbott foi um personagem incomum no Brasil do século XIX. Inglês, de família pobre, chegou à Bahia com 16 anos fazendo o papel de groom (uma mistura de discípulo e serviçal) do cirurgião brasileiro José Álvares do Amaral, que logo percebeu a vocação do rapaz e lhe incentivou os estudos. Ao morrer em 1868, com 72 anos incompletos, na sua amada Bahia, após 32 anos como professor na Faculdade de Medicina e depois de ter recebido todos os títulos e honrarias possíveis, Abott foi considerado uma figura central no desenvolvimento da medicina brasileira.

O livro vai na contramão dos diários dos viajantes europeus que estiveram no Brasil do início do século XIX e retrataram a vida aqui de forma precisa, porém muitas vezes baseada apenas no pitoresco de um terra primitiva em relação à Europa. Abbot assume o papel contrário. Inglês apenas de nascença, adota o Brasil como sua verdadeira pátria e traça um retrato fiel dos países europeus que visita em 1930, quando vai fazer um curso de especialização cirúrgica. Da Inglaterra, por exemplo, suas observações não são nem um pouco elogiosas, com destaque para a epidemia de cólera-morbo e a falta de educação. "Que povo! Que gente! Que canalha desbocada! A bebedeira, miséria e a sem-vergonha andam aqui de mãos dadas".

A descrição precisa de procedimentos cirúrgicos numa época em que não havia a anestesia como conhecemos hoje e as sanguessugas ainda eram utilizadas normalmente para sangria dos pacientes - isto sem contar a quantidade de procedimentos que terminavam com a morte do paciente, como um parto – pode embrulhar alguns estômagos mais sensíveis, mas a narrativa de Abbott é tão natural e rica de observações inteligentes, trazendo muitas vezes considerações bem-humoradas do cotidiano, que acabamos nos envolvendo. Não nos esqueçamos de que ele era um médico e muitas vezes misturava a rotina do seu trabalho com atividades de lazer. "Morreu o meu amputado; vi dois amantes beijando-se no caminho do Unhão".

O livro foi organizado pelo trineto de Abott, o embaixador Fernando Abbott Galvão, que enriquece com notas explicativas as anotações da viagem à Europa no começo dos anos de 1830, inclusive tendo o cuidado de explicar os anglicismos utilizados por ele. Na outra parte do livro, Galvão parte para uma biografia bastante fluente de seu trisavô, inclusive citando o momento mais dramático de sua vida, o suicídio da filha Leopoldina, em 1835, fato que talvez explique o sumiço de muitas folhas do seu diário, “pois é forçoso admitir que o bem intencionado violador, em virtude de um preconceito hoje superado, tivesse pretendido escamotear um fato que lhe parecia desonroso”, como menciona no prefácio o também diplomata Rubens Ricupero. Também está ali mencionada a Revolta dos Malês, rebelião de escravos muçulmanos na Bahia, em 1835, na qual Abbott tratou de muitos feridos.

As viagens de navio, outro tormento para a época, são também descritas por Abott com realismo, embora muitas vezes ceda a voz à leveza de espírito. “A manteiga está dura, a carne de porco fresca já dura cinco dias sem sal e os percevejos morreram todos por não trazerem capotes: bem feito!” Dá para perceber que para um europeu já devidamente adaptado à vida baiana, o frio e a chuva europeus são uma tortura sem fim, principalmente quando há pouco dinheiro para a lenha e é preciso acordar cedo para aulas de anatomia.

Além das saudades do Brasil (“Já não sou infeliz, recebi doze cartas hoje”), Abbott lamenta profundamente as rebeliões de escravos na Bahia e as batalhas entre portugueses e brasileiros no período que antecedeu a renúncia de D. Pedro I, contemporâneas das revoluções de 1830 na Europa, das quais ele foi testemunha pessoal de algumas escaramuças.

Gosto pela cultura incomum para o seu tempo

Apesar de ter nascido em profunda pobreza, desenvolveu um gosto pela cultura incomum para o seu tempo. Entre uma amputação e uma dissecação, não deixava de assistir a peças e concertos, mas sua grande paixão realmente foi a pintura, tanto que sua valiosa pinacoteca, talvez a maior do Império, acabou constituindo o núcleo do Museu de Arte Sacra da Bahia. Sem dúvida, um homem incomum, que deixou marcada sua passagem pelo Brasil e pela cidade que tanto amou.

- FOTO: Faculdade de Medicina da Bahia

ZÉ LINS E O APRENDIZADO DA ESCRITA


Ligeiros traços - Escritos da juventude, de José Lins do Rego. Organização de César Braga-Pinto. Editora José Olympuo, 304 páginas. R$ 35

(Publicado no caderno "Prosa & Verso", do jornal "O Globo", em 12 de janeiro de 2008)

Obra com textos da juventude do autor mostra a evolução de seu estilo

Livros póstumos de escritos da juventude costumam ter duas características básicas: são úteis para se entender o processo de formação do escritor, mas ao mesmo tempo trazem muitos textos de pouco valor literário. É o que acontece neste livro organizado por César Braga-Pinto sobre os primeiros escritos de José Luis do Rego publicados entre 1919 e 1924, época em que o futuro autor de “Menino de engenho”, que em setembro completou 50 anos de morto, tinha entre 18 e 23 anos.

O livro é dividido em três blocos. No primeiro, são os artigos escritos por Zé Lins (que também está sendo homenageado no excelente documentário “O engenho de Zé Lins”, de Vladimir Carvalho) com 18 anos em jornais como a “Folha de Recife” e o “Diário do Estado”. Depois, quando já estava na Faculdade de Direito de Recife, entre 1920 e 1923, e por fim os artigos para a revista paraibana “Era Nova”, estes bem mais amadurecidos.

A linguagem empolada do primeiro bloco contrasta fortemente com a dos outros dois, e principalmente com as suas obras da fase adulta, quando o autor desenvolveu uma prosa simples e envolvente, baseada na memória e bastante descritiva de personagens típicos do nordeste do ciclo da cana de açúcar. Apesar dos temas não ajudarem muito, já que muitas vezes são bastante locais ou enfadonhos, já dá para perceber, aqui e ali, um pouco da dimensão que aquele garoto, ainda um pouco panfletário e virulento nas suas críticas, alcançaria.

A virulência, aliás, é freqüente nos textos. Entre as vítimas de Zé Lins está uma turma que faz parte do cânone literário deste país, como Euclides da Cunha, Aluísio de Azevedo e o grupo da Semana de arte moderna, de 1922, para ele um conjunto de “originalidades fáceis a custo de escândalo e ignorância”, responsável pela fundação do “pedantismo intelectual brasileiro”.

É interessante notar que em comparação aos paulistas de 1922, José Lins do Rego ressalta a importância do movimento modernista do Rio de Janeiro, que ultimamente vem sendo lembrado por pesquisadores e que nas crônicas do autor paraibano aparece muito bem representado no movimento “Árvore nova”, liderado por Tasso da Silveira e Rocha de Andrade.

Por outro lado, não há como negar o excesso de conservadorismo da maioria dos textos, traduzido na busca constante pela ordem e no apego à tradição, características que seriam ampliadas na amizade com o seu mestre Gilberto Freyre, e também um certo tom reacionário, como na crônica “A Paraíba e seus problemas”, quando escreve que Castro Alves “se gastou em apiedar-se de negros robustos que estavam tão bem nos servindo na escravidão”.

Quando diminui os excessos, Zé Lins é capaz de revelar-se um cronista em fase de amadurecimento, defendendo teses interessantes e passeando por temas distantes mas bem alinhavados num texto enxuto. Embora haja às vezes excesso de citações, comum em quem está começando a publicar em jornais, o autor desenvolve suas próprias opiniões com autoridade e bastante segurança, não hesitando em mudar de opinião com o tempo, como acontece com Coelho Neto e Rui Barbosa, que passa de “Davi imaginoso que tece hinos de glória ao trabalho nobilitante” (ainda no tom rebuscado dos 18 anos) ao homem que “pecara demais para um arrependimento fácil”, logo após a morte da “Águia de Haia”, em março de 1923.

O que se percebe também, mesmo nos primeiros textos, é uma característica fundamental do futuro escritor: o amor pela poesia popular. Basta ler o artigo “Morte de um trovador”, bastante saudosista, no qual o garoto de 18 anos lembra com a melancolia de um homem maduro, “despido da roupagem branca dos inocentes”, a vida de “João Passarinho”, personagem que vivia no engenho de seu avô que cantava e tocava no violão “notas artísticas de um sentimentalismo sublime”. João Passarinho perdeu o juízo, “dizem as más línguas que fôra a ingratidão de uma mulher”, e morreu de gripe espanhola, mas foi resgatado por Zé Lins não apenas nesta crônica como no seu romance “Fogo morto”.

Um dos melhores textos é o que ele dedica a Lima Barreto, em 1922, definindo o autor de “Triste fim de Policarpo Quaresma” como “a maior vocação do nosso romance”, só inferior a Machado de Assis. Embora curto, o artigo é duro em relação aos opositores de Lima Barreto, um autor que combateu a hipocrisia e as formalidades de seu tempo, e que por isso não teve uma projeção à altura da sua obra. Como diria o então ainda muito jovem cronista José Lins do Rego, mas neste artigo já revelando boas doses de ironia, “os grandes escritores têm sua língua e os medíocres, a sua gramática” – comentário bastante atual, como a própria obra de Lima Barreto.

FÁBULA SOBRE O COTIDIANO



(Publicado no caderno ´Prosa & Verso´, do jornal ´O Globo´, em 24 de novembro de 2007)

Zusak conquista leitor com a história de um sujeito comum, entediado e boa praça

Eu sou o mensageiro , de Markus Zusak – Editora Intrínseca – 320 páginas – Tradução de Antônio E. de Moura Filho - R$ 39,90

Depois de “A menina que roubava livros”, sucesso estrondoso no mundo inteiro, o australiano Markus Zusak, que esteve presente na Bienal do Livro, volta às livrarias brasileiras com “Eu sou o mensageiro”, seu terceiro livro e escrito quatro anos antes de “A menina...”. Quem gostou de seu best-seller, não vai se decepcionar com esta fábula urbana sobre um sujeito que não consegue fazer nada direito e que recebe uma missão que vai mudar sua vida.

Ed Harris é um taxista, um sujeito comum, que tem “uma televisão que precisa de um tempinho para aquecer, um telefone que quase nunca toca e uma geladeira que fica fazendo um chiado que parece rádio fora de estação”. Além disso, na descrição minuciosa que o autor faz de seu protagonista, sabemos que ele se atrapalha com as mulheres, vive com um cachorro velho que adora tomar café, seu pai morreu de alcoolismo, a mãe o detesta e seu maior prazer é se reunir com os amigos para jogar baralho. Até que um dia ele dá uma de herói (ou anti-herói) num assalto a banco e logo em seguida recebe uma mensagem, escrita numa carta de baralho. E é aí que tudo muda.

Zusak pontua seu texto com frases curtas, que dão uma dinâmica à narrativa bem construída em torno do suspense das mensagens misteriosas e de quem as teria enviado. No início, o excesso de acontecimentos e de diálogos inusitados causa uma certa estranheza, mas com o tempo a fábula vai dominando a história e envolvendo o leitor. O autor mistura humor com momentos de sensibilidade e solidariedade, o que faz deste livro uma obra de um otimismo contido e agradável, embora a melancolia esteja sempre à espreita. “Ali está minha mãe, 50 anos na cara, andando pela cidade com um cara – enquanto eu estou aqui sentado, na flor de minha juventude, completamente sozinho.

Mas a empatia que Zusak consegue criar entre leitor e personagem é o seu maior mérito. Ed Harris é um homem comum, um personagem urbano solitário e entediado, mas gente boa, daquelas pessoas que não querem fazer mal a ninguém e que nunca conseguem dar a guinada, o passo à frente em suas vidas, acabando por se entregar à rotina. “Fiquei meio deprê ao pensar que um ser humano pudesse ser tão solitário a ponto de se consolar com a companhia de utensílios domésticos que apitam e de se sentar sozinho pra comer”.

Já deu para perceber que, assim como em “A menina que roubava livros”, por trás do humor, do inusitado e de uma certa leveza há profundos questionamentos nos livros deste autor. Se lá era a Morte que contava a História, aqui o protagonista não apenas muda a vida das pessoas, mas ele próprio vai se transformando em algo melhor, mesmo que de uma forma confusa. Sem querer passar nenhuma mensagem do tipo “moral da história”, Zusak nos faz enxergar o óbvio de que o auto-conhecimento é a primeira condição para darmos um passo à frente. E muitas vezes esse auto-conhecimento só surge quando buscamos um outro tipo de relação com o outro, quando saímos da poltrona em frente à TV, da comida artificial requentada no microondas e da rotina enfadonha.

No caso de Ed Harris, sua vida depende muito dos amigos fiéis, pessoas como ele, que se refugiam em pequenos prazeres, não têm muito dinheiro nem planos mirabolantes para a vida, que está “toda estruturada neste beco sem saída e sem futuro”. Mas as cartas mostram que está na hora de enfrentar tudo, mesmo sem saber o quê nem como. Oportunidade é a palavra-chave desta história, o momento em que ela passa, espera um pouco e se não for aproveitada vai embora sem bilhete de despedida nem promessa de voltar.

As mensagens nas cartas trazem missões para ele cumprir e adiantar o teor delas seria tirar um dos grandes prazeres deste livro. Não há nada, no entanto, próximo daquelas tramas mirabolantes repletas de um suspense artificial e de final previsível. Como disse, é uma fábula, e portanto é bom estar preparado para o inusitado. Afinal, não há quem não queira uma pequena ajuda externa para dar um rumo em suas vidas, seja de uma fada madrinha ou de um anjo torto como Ed Harris.

MALDIÇÃO IMPERIAL



(Publicado no caderno "Prosa & Verso", do jornal "O Globo" de três de novembro 2007)


Mary Del Priore conta a vida trágica do príncipe que tentou ser Dom Pedro III

O príncipe maldito, de Mary Del Priore. Editora Objetiva, 312 páginas. R$ 36,90.

Uma das teorias mais interessantes no estudo da História é a especulação baseada na teoria do ´se´. Entre as mais divulgadas está a de como seria o mundo se Hitler tivesse vencido a guerra. Aqui no Brasil, muitos imaginam também como seria o país se os comunistas tivessem tomado o poder nos anos 60, em vez dos militares. Este livro trata de um outro ´se´ cheio de significados simbólicos dentro da História do Brasil: e se, em vez da república, D. Pedro III assumisse e desse continuidade ao Império brasileiro?

Muitas tramas para suceder o avô como imperador

A pesquisadora Mary Del Priore já deu grande contribuição ao estudo da História e da formação da sociedade brasileira com a sua coleção “História da vida privada no Brasil”, indispensável a quem quiser ao menos começar a tentar entender hábitos e costumes seculares do nosso povo. Aqui, ela descreve a vida do “príncipe maldito” utilizando a narrativa do romance histórico, o que torna a leitura bastante agradável, mesmo com tantos nomes, datas e informações e, o que é muito importante para situar o leitor, contextualizações históricas.

Mas quem era D. Pedro III e por que a alcunha de maldito? Na verdade, como se sabe, Pedro Augusto jamais chegou a ser D. Pedro III e mesmo que o império ainda existisse quando seu avô D. Pedro II morreu, em 1891, exilado em Paris, a primeira da linha sucessória seria sua tia, a princesa Isabel, e depois seus dois filhos. Pedro Augusto era o filho de Leopoldina, irmã mais nova de Isabel e já falecida. Mas Pedro tramou, e tramou muito para assumir o poder quando o avô, já debilitado há muitos anos, morresse. E é desta trama repleta de intrigas que trata a maior parte deste livro.

Por ter nascido antes dos filhos da tia Isabel e do seu marido, o Conde d´Eu, Pedro Augusto, descendente da dinastia dos Saxe e Coburgo, da Bélgica, sempre foi visto como aquele que iria chegar lá. Recebeu uma educação privilegiada, da mesma forma que o avô, e realmente era visto, pelos amigos do império mas também por abolicionistas e republicanos, como a pessoa talhada para assumir o império quando o avô morresse. A princesa Isabel era considerada uma pessoa sem preparo para assumir o poder e o Conde d´Eu era detestado, principalmente pelos militares.

Nos intervalos entre os dramas familiares e as crises políticas, a autora nos entretém com detalhadas descrições da geografia carioca da época, bem diferente da atual após tantos aterros e desmontes de morros, e também com detalhes pitorescos e por isso mesmo mais próximos da vida comum e que nunca encontramos nos livros didáticos. “Foi a primeira a demonstrar que não se provava virgindade em mulher enfiando um ovo vagina adentro”. A linguagem íntima retratando o que acontecia dentro dos aposentos imperiais passa longe do tom formal dos documentos oficiais, como na correspondência trocada entre as princesas Isabel e Leopoldina, ainda muito jovens, e que continham expressões como “Almirante de merda”, referindo-se ao vice-almirante Joaquim Raimundo, ou a perguntas do tipo: “Você se borrou com as pastilhas de chocolate”?, este “borrou” no sentido escatológico mesmo.

Se D. Pedro II às vezes é criticado por uma indecisão na hora em que é preciso tomar uma atitude, a autora enaltece outras qualidades do monarca já mencionadas por outros pesquisadores, como o completo respeito à liberdade de imprensa, a honestidade e a lisura em relação ao dinheiro público e, principalmente, o amor ao Brasil e ao seu povo, que por sua vez adorava o imperador e a princesa Isabel. A cena do exílio da família real, embarcada em plena madrugada, “lembrava um cortejo fúnebre” e é descrita de forma extremamente emocionante.

Dom Pedro II nunca quis um banho de sangue em seu nome

Se a corrida sucessória e as intrigas que a cercavam tomam a maior parte do livro, Mary Del Priore também dedica um generoso espaço ao momento seguinte à Proclamação da República, feita à revelia do povo (“...a rua do Ouvidor não se banhou em sangue, não se cobriu de barricadas, não se envolveu no fumo das batalhas!”) e que propiciou o surgimento do movimento monarquista, já que muita gente importante que apoiou a república agora se arrependia diante dos desmandos do novo governo. Se (novamente ele) D. Pedro II tivesse resistido, é bem provável que o povo e também os militares que apoiavam o imperador tivesse reagido. Mas D. Pedro II nunca quis um banho de sangue em seu nome.

E o príncipe Pedro Augusto, personagem principal de um livro repleto de personagens importantes? Seu destino, obviamente, não pode nem deve ser revelado aqui, mas o leitor já vai imaginando um desenlace trágico através de diversas pistas deixadas pela autora ao longo do texto. E fica a certeza de que aqueles momentos dramáticos e cruciais da História do Brasil, como a abolição, de papel fundamental no desfecho dramático da narrativa, repercutem até os dias de hoje.